Vasco da Gama; correnteza de cadeiras no andar da restauração, cá fora, a ver o rio. O melhor sítio do Vasco para um dia quente de sol. Mas nem a cúpula da Utopia me distrai de ti. Queria-te aqui, a ver isto comigo. Não teria necessidade de escrever-te, porque estavas a viver tudo isto comigo. Vou aqui ficar um pouco mais, a lembrar-me dos momentos até agora em comum contigo, vou ver a tua imagem, e vou juntar-te a mim - desejando que aconteça fora da imaginação.
15 junho 2006
14 junho 2006
JORNADA - 3
Saindo pela porta giratória do CCB, no Centro de Exposições, o cantinho mais à esquerda, resguardado por uma pequena selva cor-de-rosa. Já almocei, no McDonald's de Belém, depois comprei uma embalagem de seis pastéis, comi dois, e um farto pedaço de salame de chocolate. Nem assim, tal não chegará nunca, como nada chegará, para que te esqueça. A todo o momento dou por mim a correr para a tua imagem que trago comigo. Encher-te de mimos; dar-te o que sinto por ti. E, juntos, olharmos a parte da Margem Sul e do Tejo que se pode avistar daqui; enquanto olhavas, ia enchendo esse terno pescoço de repenicados beijos. Tudo seria tão melhor, se estivesses aqui!
13 junho 2006
JORNADA - 2
Anfiteatro dos Jardins Gulbenkian. Lugar mágico. Até parece que não há aqui ninguém, até parece que não passam aviões por cima a toda a hora, como se os pássaros, as folhas ao vento, a sombra das árvores, todo este bucolismo abafasse a vida que há à volta. Era capaz de viver aqui para sempre. Aqui, na segunda fila a contar da direita (vindo do acesso mais à esquerda - de quem vê por cima), quarto lugar; e, no terceiro ou no quinto (ou mesmo no quarto), tu. A olharmo-nos, a olharmos a letícia nos olhos das criancinhas que na skene brincam, a olharmos o canto do lago, ao fundo esquerdo, e a perdermo-nos depois um no outro. Dia mágico, que para ser real bastavas tu.
10 junho 2006
JORNADA - 1
São oito e cinquenta e oito. Ainda penso em ti. Falta uma hora para que o comboio chegue, e não me sais da cabeça. Lá, para onde vou, também lá estarás, tal como estás aqui? Eu sei que sim, inevitavelmente, porque não penso em mais nada senão em ti. Tua levo uma imagem, na qual sorris de uma forma indescritível; talvez a única coisa a dizer é que é um sorriso teu, e isso dá logo a ideia da unicidade do esplendor daquela imagem, que terceiros fizeram. Vou olhá-la atentamente, não para não te esquecer mas para me alimentar. Tu bastas-me, e eu quero bastar-te.
São oito e cinquenta e oito. Ainda penso em ti. Falta uma hora para que o comboio chegue, e não me sais da cabeça. Lá, para onde vou, também lá estarás, tal como estás aqui? Eu sei que sim, inevitavelmente, porque não penso em mais nada senão em ti. Tua levo uma imagem, na qual sorris de uma forma indescritível; talvez a única coisa a dizer é que é um sorriso teu, e isso dá logo a ideia da unicidade do esplendor daquela imagem, que terceiros fizeram. Vou olhá-la atentamente, não para não te esquecer mas para me alimentar. Tu bastas-me, e eu quero bastar-te.
03 junho 2006
Espelho meu, haverá alguém mais bela que ela? Pois sim, seu campónio depravado, há; mais bela que ela só ela sem ti, só aquela "ela" que não conheces, porque é a que não te conhece. Ouvindo isto, não tive outro desejo senão fazê-la ainda mais bonita; além de não me conhecer, nunca se cruzaria comigo. Decidi com toda a minha resignação. Mas quem sou eu para decidir ou, sequer, resignar?Eu sou daqueles que, fruto da noite, se embebedam do mal alheio e o tornam seu. Se calhar por isso os deuses, aproveitando para me contrariarem, me aproximaram dela. Sou uma sanguessuga dos podres que grassam nos seres que procuram aproximar-se da perfeição da felicidade. Eles têm esse objectivo; eu sou algo que não pode sequer pensar em objectivos: minha única função é sacrificar-me para e por eles; por todos eles; mas fui destacado para ela.
07 abril 2006
A viagem foi muito cansativa. O ar frio e húmido inutiliza os panos encardidos e sujos em forma de roupa que me cobrem. É noite. No meio das casas escuras e precárias, uma que emana luz; uma taberna. É disto que preciso; um bom vinho, uma mulher fácil de formas cheias, uma cama para passar o resto da noite. Cá fora, uns porcos vão tratando da imundície que atola o chão enlameado. Antes de entrar, ajeito o alforge onde levo a razão da minha presença aqui: um documento de vital importância que o Rei, refugiado num pequeno bosque rodeado de inimigos, envia ao seu cunhado, rei desta terra, e seu único aliado. Que acontecerá se o papel se perder? Muitas vidas, e se calhar entre elas todas onde corre o mesmo sangue que em mim, cessariam em menos de um mês. Se entrar nesta taberna, deitarei por terra o futuro da insígnia que, à nascença, tatuaram-me no peito? O vinho, terá veneno? A mulher, uma espiã? A cama, meu último e eterno repouso? O meu corpo está mais fatigado que o do atleta-hoplita próximo de Atenas, falta-me ainda um par de dias de viagem - mas não posso parar. Não vou parar. A vida do Rei acima das hesitações do meu corpo.
04 dezembro 2005
Não sabes? Não sabes mesmo? Então eu lembro-te: dói-te a cabeça porque foste lá. tantas vezes eu te disse: não vás!, não vás!, não virás bem de lá! acabaste por ir, e eis o estado desumano em que surges. Ah, pois é, sim, mas mais desumano do que costumas ser. É bem feito! Aquilo não é lugar para ti. Por acaso viste as flores? Sim, lindas, não eram? Ah foste cheirá-las! Já sabes então donde vem essa dor de cabeça que é maior que a tua área cranióide. O pólen dessas plantas, ó grande imbecil, é só para quem nasce apto a captá-lo para o consumir; para quem, em contacto com essas lindas florzinhas, se torna um-só com elas, e o pólen, droga de vida, flui entre um e outro em júbilo. Vá, encosta-te aí, no teu canto, e deixa para os outros o que não é para ti.
27 novembro 2005
A luz fraca vai chovendo pelo móveis abaixo; na caixinha cinzenta, um parvo qualquer entretém as massas; no sofá, jaz o teu corpo mole. Os teus olhos vão-se fechando às vezes, como se quisessem evitar ter de ver a miséria em que te tornaste; consegues ainda ver a tua mão amortecida sobre o braço do móvel que te sustém, e lembras-te dela a agarrar os carros, as canetas, uns seios. Um mundo de ouro que, contra a previsão, oxidou. Finalmente os olhos fecham-se, e a pouco o som que vai irritando o ar também vai ficando mais longe, cada vez mais longe, até que de repente um ruído surdo te entope os ouvidos. É ELA que entra, atravessando, como um navio num mar tempestuoso, as vagas de ar que te sufocam.
28 abril 2005
Querias estar vivo quando esse ano ocorrer? então não podias estar vivo agora. não a conhecias. não serias escamoteado por aqueles em específico. outros talvez to fizessem, mas o que importa é que se vivesses nesse ano não serias tu; só tendo nascido quando nasceste, onde nasceste e donde nasceste é que pudeste ficar assim. não queiras o que não se relaciona contigo. lembra-te: ela, sempre ela! ela é já razão suficiente para estares aqui agora, a consumir estas matérias, estes produtos. este arroz que comes: é teu, só teu, só de agora, só dura enquanto o levas até ti. ninguém mais o vê, só tu. tu! como se tu pudesses ver mais alguma coisa além dela! por muito que o negues, por muito que o não mostres, por muito que ela te queira, te mostre que te quer sem lho responderes. porque o fazes? porque és assim, hás-de ser sempre assim: nasceste assim. morrerás assim. até lá, ama-a, ainda que nunca se materialize o que se insinua entre vocês. ama-a da forma como concebes o Amor, a Relação, todo o propósito de ambos existirem. continua a amá-la, e quando estiveres numa fase em que descais para quem está mais perto de ti, em mais fácil acesso, algo há-de ocorrer que vos volte a chocar. como o que acaba de acontecer.amanhã já não te lembras, mas hoje não te sai da cabeça. ama-a. ainda que venhas a acabar tal qual como estás.QED
10 abril 2005
A vida na selva é regida por uma lei: a anarquia. Quem pode, salva-se, isto é, apodera-se dos lugares mais respeitosos - mas não é por ocupá-los que de imediato ficam isentos de riscos: é precisamente por os ocuparem que correm mais riscos, porque todos os outros ambicionam estar onde estão. Nesta selva, eu estou, entre muitos, no lamaçal. Mas eu sei que estou no lamaçal, enquanto outros, que aqui estão comigo, julgam estar lá em cima, nos galhos últimos das árvores, onde nem as cobras vão e donde se diz que se vê toda a selva. Vivem, pois, nessa ilusão, mas só a aplicam a eles, porque quando olham para nós, os que não têm essa ilusão, e portanto não concordam com eles, acham que nós é que somos quem está no pior lugar. Não aceitam quaisquer confrontações, a sua ilusão consome-os e não desaparece. Eu sei que estou no lamaçal porque, apesar de não ter nada, não me dão nada, nem tenho hipóteses de um dia vir a mudar para um sítio mais seco. Sei que é esta a minha condição, e embora Séneca e Nietzsche se degladiem sobre se é bom ou mau, respectivamente, estou aqui, eu, que sei que nenhum deles aqui esteve, aceito o lugar, não só porque é aquele onde à partida surgi e donde nunca saí, mas também porque quero evitar as longas e dolorosas quedas daqueles que cá vêm parar vindos de lá de cima.
28 março 2005
Uma banal livraria numa esquina para a rua principal. Chuva miudinha mantém a cara fresca e um estado de espírito doentio favorável ao aspecto zombie que se tornou moda no mundo digital. O sujeito (sem nome, à boa maneira neo-realista), entra pois nessa loja. O seu objectivo é não mais que este: gastar dinheiro, ainda que lhe tenha custado mais a ganhar do que o seu verdadeiro valor. Uma escolha demorada para conseguir a melhor decisão. Mas a cereja do bolo torna o gosto pelo livro escolhido em bolo, melhor, em massa da base: um par de olhos vulgares, banais, redondos como todos, sérios como todos, castanhos como muitos. Só que o brilho; a imagem que se vislumbra para lá do globo ocular, mera janela rústica de um palácio de rei-sol. Porém, de imediato o fim da primeira ficção: ouro anelar num dedo. Logo nova esperança: forbidden fruit. Não: a voz dela diz que não, e de novo os carros, as nuvens, a inexistência de uma razão pequena para se conhecer a vida.
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