27 novembro 2005

A luz fraca vai chovendo pelo móveis abaixo; na caixinha cinzenta, um parvo qualquer entretém as massas; no sofá, jaz o teu corpo mole. Os teus olhos vão-se fechando às vezes, como se quisessem evitar ter de ver a miséria em que te tornaste; consegues ainda ver a tua mão amortecida sobre o braço do móvel que te sustém, e lembras-te dela a agarrar os carros, as canetas, uns seios. Um mundo de ouro que, contra a previsão, oxidou. Finalmente os olhos fecham-se, e a pouco o som que vai irritando o ar também vai ficando mais longe, cada vez mais longe, até que de repente um ruído surdo te entope os ouvidos. É ELA que entra, atravessando, como um navio num mar tempestuoso, as vagas de ar que te sufocam.